15/02/2012

ARTIGO DA SEMANA: ALBERTO GUERREIRO - UM GRANDE ADMINISTRADOR

Guerreiro foi um homem além do seu tempo, comprometido com as lutas da época. Sua trajetória oscilou entre o comprometimento e o ceticismo, como outsider da academia sociológica no Brasil.

Guerreiro está refletindo e pensando a questão do negro a partir de sua própria vida, está se assumindo como negro. Faz isto em uma posição social de elite negra e ocupando um espaço nada modesto na assessoria da Presidência da República. Ele declara que foi ali que começou a entender os problemas da política brasileira, do Estado no Brasil.

A partir daí trata o problema da população negra inserindo-a em sua compreensão da questão, a mais datada, atrelada a uma conjuntura que não mais existe: o Estado promotor do desenvolvimento e da democracia no Brasil.

Por outro lado, a seu favor, podemos dizer que foi fato a inserção de negros e mulatos no aparelho de Estado. A crise do Estado brasileiro cortou esta corrente de promoção e mobilidade do negro. Essa discussão volta a ser importante nos dias atuais.

Guerreiro foi suplente de deputado federal pelo PTB do antigo Estado da Guanabara e assumiu a cadeira em 1963 na vaga de Brizola, eleito governador do Rio Grande do Sul. Teve seu mandato cassado em 1964.

Depois disso, voltou a analisar e a escrever sobre administração, racionalidade, teoria das organizações. Em 1966 foi para os Estados Unidos, onde ensinou e produziu artigos e livros. Lá escreveu A nova ciência das organizações – uma reconceituação da Riqueza das nações (1981).

Ou seja, estava discutindo com Adam Smith; estava ocupado em repensar o Ocidente decadente, estava questionando a categoria de tempo se desenvolvera com o Iluminismo.  Com sua crítica à sociedade centrada no mercado, passa a desenvolver  sua "teoria delimitativa dos sistemas".

Assim, não sei o que ele estaria dizendo sobre as análises das relações raciais/étnicas hoje no Brasil. Não sei se Guerreiro Ramos estaria concordando com a "política de cotas" como medida legal capaz de diminuir as diferenças sociais entre negros e brancos, principalmente  se tomarmos essa política como resultado da importação de categorias do mundo norte-americano para a brasileiro, haja visto que a crítica ao transplante de categorias era fundamental em sua sociologia, em sua proposta de "redução sociológica".

Mas certamente a valorização da negritude seria aplaudida, já que ele já enfatizara esse fato pensando naquilo que é vital para entender os negros e sua pequena participação nos bons empregos, nas boas escolas etc.

Outra questão que ainda precisa ser mais bem analisada é a relação entre "raça" e o pensamento da AIB, como nos mostra Marcos Chor Maio (1992). Guerreiro Ramos e Abdias do Nascimento foram integralistas em sua juventude.

Conheço outras famílias de afrodescendentes que tiveram grande mobilidade social e cujo pai também pertenceu à AIB na juventude. Os integralistas, ou parte deles, podem ter sido contra os judeus, mas não contra os negros na sociedade brasileira. Isto vale apenas para mostrar a complexidade da sociedade brasileira, ou, como já foi dito: "O Brasil não é para principiantes!",  ou como disse um professor  e político do Paraná, Belmiro Valverde Castor, em seu livro: "O Brasil não é para amadores".

A trajetória, a palavra, a obra de Guerreiro ainda precisam ser mais bem conhecidas e estudadas, já que fornecem um exemplo significativo dos dilemas intelectuais e práticos da sociedade brasileira.

É necessário um acompanhamento "fino" da trajetória individual deste intelectual, de sua geração e de seus diferentes companheiros de viagem.

Nesse sentido inserir o Brasil no contexto mundial da Administração passa  por um modelo com nossos valores, figuras e pessoas de significados importantes para o crescimento do nosso país no contexto mundial com uma administração feita com a nosso jeito e nosso estilo brasileiro de ser, por isso uma TGA – Made in Brazil.

 

 

* Robson Paniago é Doutor em Ciências Empresariais pela Universidad del Museo Social Argentino, Coordenador do  Curso de Administração do UNISAL – Campinas e Professor de graduação e MBA da FGV. Sócio - diretor da CONSULTEE – www.portalconsultee.com e da CEC – www.cecapivari.com.br. Palestrante, Articulista do Jornal de Jundiaí e Consultor.

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